Exposições

"O resto é a sombra" - Pedro Quintas

Cor e forma

 

Qualquer fundo de pintura subtrai a sua

própria matiz das cores que carrega e

assim as influencia. (cit. Josef Albers)

 

Após a primeira exposição individual do artista Pedro Quintas na Galeria Belo-Gasterer e dando continuidade ao trabalho apresentado em Maio de 2018 naquele espaço, a Galeria Fernando Santos apresenta a exposição “O resto é a sombra”, dos seus trabalhos mais recentes.
 No espaço da exposição somos confrontados com mais de dez pinturas de acrílico sobre tela, formatos rectangulares de diferentes dimensões. Nestas obras, sobressai a cor e a geometria dos padrões e sinais coloridos apresentados. Esses traços dominantes levam-nos a considerar os modernistas, sobretudo da Bauhaus, com as suas predileções pelo estudo e análise da cor e forma, de organização formal hierarquizada. No seu tratado sobre as cores (1929)1, por exemplo, Kandinsky, professor da Bauhaus de 1922 a 1933, afirma que as cores primárias têm a sua correspondência formal em determinadas formas geométricas: o amarelo no triângulo, o vermelho no quadrado e o azul no círculo. Tanto como esta teoria de Kandinsky seguia sobretudo intuições pessoais e colectivas, e não necessariamente razões científicas, a escolha de cores e formas acaba sempre por ser algo que segue padrões estéticos e de aculturação estri- tamente pessoais. Estas considerações no caso das pinturas de Quintas impõem-se, e sempre existiu, uma vontade de geometrização; em algumas destas telas encontramos um mesmo padrão que ziguezagueia pelas telas, contrastando com o fundo.

Como por exemplo em “Vai, vai onde o acaso te leva” – a interpelação é sublinhada pela força do contraste entre o verde saturado e o cinza mate, e a ideia do passeio, do vaguear pelo mundo – “onde o acaso te leva” – que podemos encontrar no verde, representante de paisagem... Nesta obra, como em tantas outras da exposição, o título oferece-nos mais um significado, uma segunda possibilidade de leitura e interpretação.2

A partir de obras como esta começamos a entender todas as outras em que o padrão se desenvolve a partir da ligação entre letras, deformadas na sua forma, ou de fontes diferentes, criando dessa forma matrizes variadas, que nem sem- pre são de clara leitura ou interpretação. Uma charada para o observador...
Há algo misterioso nesta transformação do grafismo para a imagem – um processo de autonomização da letra, em que ela se estica, se estende, ocupando o terreno da pintura. Cria-se um labirinto visual, reforçando desta forma o contraste entre fundo e linhas sobrepostas, em que nos perdemos nas linhas que se tornam letras, e nas letras que se tornam forma...

Alda Galsterer, 28 de Maio de 2018

 

1 Das aulas de Wassily Kandinsky na Escola Bauhaus fazia parte a aula importante „Introdução aos Elementos Formais abstractos“ (Einführung in die abstrakten Formelemente) (cit. a partir de fontes do Bauhaus-Archiv Berlin).
2 Além do já referido, “Tu”, “Nós”, “Jota” e “We never happened” são alguns dos títulos de obras desta exposição.

 
 
 

2015 GALERIA FERNANDO SANTOS

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