Exposições

João Jacinto - Pele Atrasada

5 Junho a 31 Julho 2010

Pintura abstracta, sobre tela, sobre papel.
João Jacinto pinta no chão e desenha na parede...
Pintura a óleo (muitíssimo óleo...), desenhos a carvão e a cinza de charuto...

“A tinta enquanto matéria plástica e colorida assume um protagonismo radical em quadros que acontecem por aparente estabilização dum magma feito de pigmentos e óleo, por entre acaso e intenção. A pasta avoluma-se em relevos e pode «escorregar» irregularmente do suporte, pode sedimentar-se em estratos horizontais entre secções da tela às vezes apenas aflorada pela cor, pode ser fragmento de parede com as suas manchas acidentais, pode solidificar em pregas e em películas que se rasgam sobre massas informes, pode aperceber-se como turbilhão de matéria cujo movimento se deteve por alguma desconhecida razão, ou, outras vezes, deixar-se ler como vestígio de paisagem ou de mapa, como chão e nuvens. A diferença constante dos resultados do que poderia ser (apenas) modo de fazer, a surpresa de cada obra concreta face à constância do processo, a variabilidade dos acontecimentos de pintura asseguram o permanente interesse do trabalho de João Jacinto.”
In alexandrepomar.typad.com

(…)
AP - A pintura situa-se no que se pode chamar a tradição da abstracção.
JJ -  Sim. E este na tradição da figuração; nesse sentido, também são parecidos. Ambos lidam com questões que têm a ver com a tradição e depois acabam por a subverter, na medida em que desviam esses caminhos. A relação com a tradição da abstracção e a da figuração é a mesma que tenho com a tradição da pintura: é um longo passado que nos pesa ou que nos torna mais leves e com que nos relacionamos diariamente; depois há figuras ou períodos de eleição que marcam mais ou menos e que posso eleger ou não.

AP - Na pintura não-representativa não parece trabalhar sobre um programa, uma ideia...
JJ - Não tenho um programa específico a partir de um ponto, quer em relação à figuração quer à abstracção. O programa é a continuidade, como o João Pinharanda refere no texto que escreveu, e nesse aspecto poderá ter a ver com as questões postas pelo minimalismo e pelo expressionismo abstracto: a questão de uma extensão, que no caso do expressionismo norte-americano não se fica apenas pela extensão da superfície do quadro, pela grande dimensão; e a ideia do minimalismo, de uma coisa depois da outra, daquela composição que não é composição... Nesse aspecto sim, poderei pegar nessas duas questões, e o projecto maior é o da continuidade, continuar a ser possível...

AP - Continuar a pintura ou continuar o seu trabalho?
JJ - O meu trabalho, porque não me incomoda nada se a pintura passar a ser impossível. Há sempre coisas que se tornam impossíveis...

AP - A continuidade coexiste com a exigência da diversidade. Não se pode continuar sempre a fazer o mesmo.
JJ - Não sou tão peremptório nesse tipo de afirmações. Ambas as coisas têm as suas dificuldades, e eu acharia fascinante que alguém conseguisse fazer incessantemente a mesma coisa. A continuidade de que falo é outra: se eu tenho um desejo permanente de fazer coisas, tenho de arranjar formas de que elas sejam possíveis e de não as fazer de uma forma estúpida, o que implica obviamente uma continuidade e uma diversidade. Há coisas que lentamente vão sofrendo alterações, às vezes um passo à frente e dois atrás...

AP - Não existe um objectivo ou um ponto de chegada?
JJ - Não, não anseio por nenhum ponto e não busco qualquer coisa...

AP - Quer dizer que o seu trabalho é, muito concretamente, uma relação com os materiais da pintura?
JJ - Uma coisa é o que dizemos assim de uma forma despida, vazia, mas é óbvio que as coisas, quando são feitas seriamente, nunca são tão nuas. Não são só os materiais e o modo como eles se comportam. Há coisas que estão por trás, que me levam a fazer desta ou daquela maneira, mas essas coisas são minhas e ninguém tem nada com isso, nem acho que sejam muito importantes para o entendimento ou a valorização ou desvalorização do trabalho. Será o modo como me relaciono com as coisas o que me leva a fazer esta ou aquela coisa, e é óbvio que penso que de algum modo elas transparecem no trabalho. Não tenho a intenção de as afirmar, não me interessa nada que tenham algum peso ou algum protagonismo na valorização do meu trabalho, mas elas devem existir, senão estaria quieto em vez de trabalhar. Alguém perguntou ao James Rosanquist (já nesta fase que é considerada de decadência absoluta) porque é que, depois de um percurso tão sólido, continuava a pintar, e ele disse que ainda tinha sonhos. Eu acho que é um pouco assim. Só consigo conceber as coisas de duas formas: ou há um projecto muito concreto, que pode ter a ver com uma dimensão profundamente interior (ou não), ou existe uma necessidade de fazer coisas e de as gerir, de as fazer com um sentido... Eu corro mais desse lado, tenho necessidade de fazer coisas, nunca quis outra coisa senão ser pintor e fazer pintura. Sinto verdadeiramente essa necessidade. Tenho todos os dias vontade de ir trabalhar e tento fazer alguma coisa com a vontade que tenho.

Continuar a pintar – Antologia de 15 de trabalho de João Jacinto
Entrevista a João Jacinto por Alexandre Pomar | Publicada no Expresso Cartaz a 26.10.2002

 
 
 

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