Exposições

Alberto Carneiro - A oriente na floresta de ise-shima

Espaço Padaria Independente
19 Setembro a 31 Outubro 2009

“(...) Esta peça de Alberto Carneiro convoca uma memória específica que se liga e é descendente da tradição de pensamento sobre a paisagem. Este dado não é novo na obra do escultor, que, pelo menos desde 1968, tem desenvolvido uma preocupação continuada em relação à pesquisa sobre a paisagem como lugar de uma evocação, em obras como O Canavial: memória metamorfose de um corpo ausente(1968), Uma Floresta Para os teus Sonhos (1970) ou Um campo depois da colheita para deleite estético do nosso corpo (1973/76).
Na longa investigação que estas obras representam sobre a qualidade estética de um lugar encontra-se sempre referida a memória ou a ausência sentida de um corpo, como se o lugar fosse sempre a possibilidade ou a presentificação de um sentimento de ausência, de falta.

Trata-se agora de proceder a uma operação diversa, não por criar um lugar - o que sempre foi preocupação de Alberto Carneiro - mas de reinventar um espaço simbólico e emocional, a Floresta.

A Floresta ocupa, talvez sempre tenha ocupado, antes de qualquer outra coisa, o lugar da casa, o sítio onde o sagrado nasce, mas também o local onde os homens se encontram, o que está tão presente nas narrativas religiosas como nos relatos bélicos. A Floresta europeia, a grande floresta da hercínia, que se estendia por toda a Europa central, demorava dois meses a ser atravessada a cavalo , ou pelo menos é esse o relato dos Romanos que tentavam alcançar a Germania. A Floresta, que antes da desflorestação do Império Romano ocupava também grande parte do norte da Itália, não é só a morada dos Druídas, a Selva Oscura de Dante, é também o lugar que a sensibilidade de Júlio César diz ser o sítio do reencontro. Entre a profundidade do medo mítico e a dimensão psicológica do reencontro, a Floresta é o lugar do nascimento do sagrado por excelência, ou do simbólico, para usar a expressão de Warburg.

Antes do altar está o lugar, e o lugar é a Floresta.
(...)
 
Este caminho cruza-se com o caminho de Alberto Carneiro. Por um lado, porque este espaço de evocação, os movimentos ascendentes que são gerados pelos troncos, o ponto onde se encontram, abaixo da linha do solo no prolongamento dos troncos, a centralidade da pira, o espaço sacrificial, todo o processo construtivo de Alberto Carneiro funda uma ordenação, instaura um espaço de celebração.
(...)

Parece, portanto, que Alberto Carneiro tenta recuperar o espaço de contemplação e pensamento que Warburg atribuía à memória, ao nosso grande arquivo.

A paisagem e a Floresta que reinventa é nesse espaço que se revelam.”  

Delfim Sardo
A invenção da floresta
Publicado no catálogo da exposição A Oriente - na floresta de Ise Shima,
CAM, Lisboa, 1997.

 
 
 

2015 GALERIA FERNANDO SANTOS

all rights reserved © web project see link