Exposições

tàpies

AS NUVENS COMOVIDAS
 
São agrafados, tatuados, carimbados os traços ferozes com que Tàpies fere o papel, o rasga, o retoma, o cobre, são cicatrizes, nódoas negras, arranhões, são rasgões, rugas, estilhaços, setas, são dores, são feridas, lanhos, hematomas, são rasgados estes traços que carimbam o vazio, reflexos incessantemente retomados.
(Ou, como diria Carlos de Oliveira, são “nuvens comovidas”?)
 
E vem-me à lembrança o discurso de Harold Pinter ao aceitar, há semanas atrás, o Prémio Nobel da Literatura: “Quando olhamos um espelho, pensamos que é exacta a imagem à nossa frente. Mas basta movermo-nos um milímetro e a imagem altera-se. Aquilo que estamos realmente a ver é uma série infindável de reflexos.“
 
O desenho em Tàpies será este imparável vagabundear perante a série infindável de reflexos que recebe do mundo, que nele inscreve e sobre si se abate, reflexo reflectido e incessante: e basta um milímetro para que tudo se altere. E o desenho guarda o segredo do seu provisório gesto, terminal gesto, presente já passado, com a nova matéria que sobre ele cai, látex, lápis, tinta, cola, adesivo ou ligadura. Ou as assemblages  doridas com que recorta o ar, o espaço, bronze que se ergue em silêncio, impávido crucifixo de tantas dores antigas.
 
Talvez por isso seja no desenho que ele mais deixa o vazio ficar sob a matéria, pairando, pisado, rodeando, oscilando, rodando, vazio amplo como o mundo, parede de caverna, leve céu onde marca os segundos de vida que passam, milímetros de mudança, pégadas, dedadas, impressões digitais do pensamento perante a infindável série de reflexos que cria e vai crescendo.
 
Ah, como o negro cai, como o branco fica, como a figura ( anjo que “não leva peso” ) cai por sobre a fenda, como o látex ressalta, ai como os anjos aqui sofrem “as leis reais do nosso peso”, diria ainda Carlos de Oliveira, o realista.
 
Não estamos, aqui,  perante a “espessa matéria” de que fala Claude Simon a propósito das grandes telas, “os lentos e espessos movimentos da memória ou da imaginação, [matéria] ora cremosa, unctuosa, ora granulosa, arenosa, corroída e que, para lá de qualquer re-presentação se apresenta a nós no presente.” (1). Não, estamos no seu negativo, na sua sombra: um traço que se soltou, uma seta, uma incisão, setas que se cruzam, é um abrir de olhos.
 
O presente dos seus desenhos é instantâneo, ao rés das coisas e do tempo, parece não vir de tão longe como as suas telas oxidadas, pesadas como barro fundido, está escandalosamente presente, sem passado nem corte, neles se recolhe, por segundos, a imanência do tempo e do seu canto efémero.
“Mesa, madeira posta
próximo dos homens”
Carlos de Oliveira, Descrição da Guerra em Guernica
 
Realista, Tàpies coloca-se contra a representação, apresenta, é. O seu sudário não traz consigo marcas de outro real para além de si mesmo – e, no entanto, nestas setas que se cruzam, na cruz que se situa, neste ondulado traço sobre o azul, que ânsia de futuro se abre!
 
Cada desenho será um voto, uma promessa, futuro tatuado neste papel, nesta real, obsessiva presença da matéria, noite transfigurada: poderão vir do fundo dos tempos os seus sinais poderosos, poderão recolher os muitos saberes, abrem-se para nós com a gravidade de um dia: prometem-nos vida sobre o saber de todos os tempos.
 
“Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos clássicos.
 
Perdem mais densidade;
ascendem na pálida aleluia
de que fulgor ainda?
e são agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.”
Carlos de Oliveira, Pastoral
 
 
“Mas às vezes o escritor tem de quebrar o espelho – porque é do outro lado do espelho que a verdade nos espera de frente.”  Conclui Pinter no seu discurso.
 
E que são estes desenhos ao rés do gesto, tão perto do homem, tão colados ao papel, tão dentro da matéria? Não estamos aqui a quebrar o espelho, depois de tanto o olharmos, não estamos depois da parede que fizemos com toda a arte e suas imagens, não estamos feridos, magoados, exaltados, primitivos sempre, mesmo agora que o mundo volta à guerra e à sua areia?
 
Jorge Silva Melo, Dezembro 2006
In catálogo da exposição Tàpies, Galeria Fernando Santos
 
(1) Claude Simon, Les Tàpies de Tàpies, Marselha, Museu Cantini 1988

 
 
 

2015 GALERIA FERNANDO SANTOS

all rights reserved © web project see link