Exposições

alberto carneiro - ser no não ser

NESTES DESENHOS ESTOU EU NO MEU JARDIM

Nestes desenhos estou eu no meu jardim: sou a terra, as ervas, as plantas, as raízes, os caules, as folhas , as flores e os frutos, os sabores e os perfumes, todos os seres vivos que nele moram.

Estes desenhos são todas essas vivências: o que me revela neste sentir indizível e se transforma em busca de pensamento não literal, reflexo deste anseio de os tornar obra.

Estes desenhos e muitos outros são o meu jardim do lado de dentro de mim, reminiscências de dádivas recíprocas nesse buscar o prazer estético de me ser arte e de a procurar ao comunicá-la aos seus fruidores.

Como agora, embora sabendo que o que comunico já não será o que senti e pude entender ao fazê-los mas sim os sentimentos e pensamentos estéticos que cada um neles descobrirá como possível vivência coincidente com a minha no meu jardim e enquanto necessidade de arte. Apenas nessa assunção coincidiremos neles: eu, seu primeiro autor e todos os outros construtores das respectivas significações moventes nos quadros referenciais da cultura de cada um.

Estes desenhos são assim reflexos da natureza em mutação nessa unidade que a morte e a vida são nela e, em mim, a busca de sentimento e pensamento estéticos que se consubstanciam nesse fruir. Ao viver a vida e a morte dos seres do meu jardim, verifico que uma e outra são indissociáveis nessa unidade do que flui e vive. A plantinha desabrocha e as folhas tenras são comidas pelos subtís caracóis e estes comidos pelos melros luzidíos e estes pelos gatinhos de cores várias, etc,etc. A morte é, afinal, um mito e a vida a redenção desse mito. Para sempre.

Alberto Carneiro, 2005


(...) “Alberto Carneiro, cujo percurso exemplar se desenhou ao longo de mais de quatro décadas, revisita agora os seus próprios caminhos, esses momentos anteriores em que re-descobre, como que movido por um puro encantamento, quer os sinais primeiros da sua obra, quer a mestria de que fez prova na elaborada época da sua consolidação. E de ambas trás elementos com que joga, também porque nisso se diverte, que não apenas a esclarecem nos seus sentidos anteriores menos visíveis, como sobretudo a reabrem a que nela se desfaçam nós que lhe foram necessários, e que agora dispensa por neles já não encontrar elementos de uma qualquer sustentação. Ao contrário, torna leve o que antes precisou de sustentar-se em mais sólido apoio, e faz espiralmente convergir os sentidos dessa obra para descobertas novas, inesperadas, mesmo se coerentes com a intuição primeira, ainda que já libertas de toda a retórica das formas, caminhando ou dançando sobre o espaço que seria o da pura expressão." (...)

Bernardo Pinto de Almeida, 2006
Texto publicado na íntegra no catálogo da exposição "Ser no Não Ser" editado pela Galeria Fernando Santos

 
 
 

2015 GALERIA FERNANDO SANTOS

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