Exposições

andré gomes - macha

Espaço 531
19 Abril a 9 Junho 2008

"Como o silvo agudo de um comboio aproximando-se velozmente, o estampido de um tiro soou no vento que fazia gemer a velha casa.

Vencida pelo pavor, Marya Illinichna, Macha, tombou sem sentidos.

No escritório contíguo ao salão o jovem Treplev, único amor da vida de Macha, descrente do seu valor de artista, cometera suicídio depois de Nina o rejeitar.
A sala afundou-se num pesado silêncio. Lentamente o pano desceu entre aplausos.
Com o passar do tempo A Gaivota continuava viva. A frágil e crepuscular figura de Macha, deslizando pelo palco como escura sombra; a maneira de se isolar dentro de si, atraída pelo espelho vazio das águas do lago; os olhos assustados de ave encadeada pela luz, que em busca de saída rasga o negrume das asas contra as espessas paredes; a casa, cujas salas se debruçavam sobre as alamedas do parque, recordando-me uma outra onde eu vivera em tempos mais felizes, incendiando-se de enigmáticos reflexos com os primeiros raios da manhã que as altas copas dos pinheiros deixavam penetrar, para logo mergulhar entre sombras – tinham-se apoderado da minha imaginação.

A certas horas, a voz de Macha, soando como um choro longínquo, abria corredores de penumbra que me transportavam àquele labirinto de ilusão.
Pronunciando palavras cujo sentido eu não reconhecia, ela vinha ao encontro das minhas mãos trémulas. Depois, segurava-as com suavidade, procurando sossego para as suas.
À nossa volta, o bosque trazia o eco de antigas memórias e murmurava por coisas desaparecidas, perdidas.

Olhámo-nos envoltos no véu da noite.

A paisagem desfocada do seu rosto fatigado, como a neblina das águas do lago, reflectia o meu."

André Gomes, 2008

 
 
 

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