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14.05 — 02.07.2022
Galeria Fernando Santos
Ana Vidigal – “Je rêve donc je suis”, 2021, Técnica mista s/ tela, 130 X 195 cm

Ana Vidigal
A Importância da Teimosia

14 Maio a 02 Julho 2022

A Galeria Fernando Santos inaugura no dia 14 de Maio “A Importância da Teimosia” de Ana Vidigal, naquela que será a segunda exposição da artista na Galeria mas a primeira em que apresenta Obra sobre tela.
“Ana Vidigal expõe desde o início da década de 80” pode ler-se no texto de Eduardo Paz Barroso concebido para a presente exposição. Uma interessante coincidência parece ser o facto de o mesmo Eduardo Paz Barroso ter sido o autor do texto publicado no Jornal de Notícias por ocasião da primeira exposição individual de Ana Vidigal no Porto, há mais de quarenta anos…


IRONIAS DO DISCURSO DA OUTRA
por Eduardo Paz Barroso

Ana Vidigal expõe desde o início da década de 80. De então para cá demarcou um campo de singularidades, seja pelo discurso plástico, seja pela atitude assumida perante os materiais e os recursos de que se serve, seja ainda pela coerência que serenamente habita o seu processo criativo.

Quando começou a trabalhar e a expor foi evidente, para alguns (entre os quais me incluí) um sentido de antecipação ancorado num imaginário feminino fértil em convicções. Dizer-se de Ana Vidigal que é feminista numa época em que essa temática e problemática parecia, por assim dizer, protegida pela irradiação de uma matriz ideológica que (quase) se esgotava na discussão existencialista sobre o segundo sexo (Beauvoir), era por isso uma afirmação verdadeira, mas redutora. Há nesta obra uma audácia constante, multifacetada e genuína, que depressa nos conduz às questões do lugar e do estatuto da mulher na sociedade e na sexualidade. E assim à psicanálise, à tentativa de superação do recalcado, a uma recusa da sublimação. Para tentar condensar a questão relativa à mulher, e ao domínio do inconsciente, na obra de Ana Vidigal, parafraseando a célebre frase de Lacan, o interlocutor da artista não descobre o discurso do Outro, mas o discurso da Outra.

A paródia, como recusa de modelos pré-existentes, e como ensaio de um efeito irónico mais ou menos devastador, protagoniza o fim da modernidade. É também neste sentido que Ana Vidigal se apresenta, no já longínquo início da década de 80 do século XX, com um espírito e uma prática de antecipação. Literalmente, no campo plástico que cria, e com a força dos magnetismos que estabelece, atraindo contrários e imprevisibilidades, a artista diverte-se e diverte-nos, mas também por isso nos perturba, com o seu modo de produção do cómico. Não o intelectualiza com pretensões barrocas, nem o vulgariza com uma falsa ingenuidade popular. Opta por transportá-lo para um campo experimental onde com mestria, lida com técnicas como a colagem e a pintura, com signos de um mundo que, mais do que contestado, ou ridicularizado, precisava de ser desconstruído. O que implica sempre um jogo com o objecto e uma predisposição para combinações e imprevisibilidades, enfim para um mergulho na linguagem, aceitando aquilo que ela tem de mais sedutor e de mais cruel. Sedutores e cruéis continuam a ser os trabalhos de Ana Vidigal, assim os podemos observar nesta exposição na Galeria Fernando Santos. Já lá voltaremos.

Ana Vidigal contribuiu para fundar uma prática onde o carácter deformador associado à paródia, o acto de transformar, adquire uma consistência plástica capaz de atraiçoar o sentido. Linda Hutcheon na sua teoria da paródia (1991), ao interpelar o mundo das formas na arte do século XX, instaura um novo campo crítico que enriquece a percepção da pós-modernidade. É com este tipo de experiência que a artista se envolve desde cedo, fragmentando registos e referências de um universo feminino aprisionado numa semântica esgotada. Deslocar a instância literária para um universo visual onde os objectos convocados se afastam da sua origem consiste, neste caso, e como também ocorre na presente exposição, numa apropriação feminina de códigos e de materiais, que graças a esse devir feminino, dão lugar a novas possibilidades de entendimento e de fruição.

Em 2010 uma exposição antológica apresentada no CAM da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa permitia colocar em perspectiva estas e outras questões. Uma viagem pela trajectória da artista levava ao reencontro com o seu ponto de partida, a uma geografia com sítios outrora sitiados, mas que graças à acção estética, se tornaram disponíveis para o imaginário. E assim se libertaram. Esta antológica permitia identificar algumas questões essenciais, como a memória e a herança. Voltam a aparecer em fases posteriores, seja pela constante ligação aos aspectos lúdicos característicos da infância, seja pela valorização de fragmentos narrativos que se desprendem da autobiografia e da história pessoal.

Também aqui continuamos, de certo modo do lado feminino do olhar. Um lado onde podemos encontrar traços de um mundo e de um certo tipo de intimidade com ressonâncias de uma galeria de personagens como aquelas que povoam os romances de Agustina Bessa-Luís, criaturas altivas, desconcertantes, determinadas, mas também vulneráveis à frustração, dependentes de caprichos, discretamente atemorizadas pelas suspeições que o amor sempre traz consigo… Ana Vidigal persiste assim num enredo que continua a tecer, sem ignorar a responsabilidade, por assim dizer, política de fazer escolhas, de as materializar numa prática artística que sabe reivindicar o tempo na dupla inscrição do histórico e do afectivo. Isto é como pregnância do acontecimento e como desconhecido. Num jogo de paradoxos, que provavelmente depende de uma sabedoria feminina, é frequente, diante destes trabalhos, sentir como estrangeiro aquilo que é familiar, e próximo aquilo que é desconhecido.

Constituem-se assim algumas premissas que nos permitem interpretar o que permanece e o que se acrescenta nesta exposição. Muito esquematicamente, e para utilizar uma formulação que sintetiza o peso e a densidade do real na existência, permanece o que resiste, a responsabilidade da vida material (Marguerite Duras), filtrada pela reescrita e pelo palimpsesto, duas das obsessões a que provavelmente nos reconduz o trabalho de Ana Vidigal, e aqui, hoje, uma vez mais. Acrescenta-se o vivido como metamorfose, um reenquadramento daquilo que a artista toma por essencial. E se o essencial é viver a sua vida (Godard, 1962), não apenas pelo que esta implica de risco e de perdição (no filme de Godard, Anna Karina, a actriz, vê, enquanto personagem, desvanecerem-se os seus sonhos e acaba mulher da vida), mas sobretudo pela exigência de recuo crítico.

O reenquadramento de que aqui se trata faz com que episódios recentes se tornem de súbito particularmente antigos. Ou que a vida dos outros se misture gloriosamente com a vida da artista. E insinua-se, uma e outra vez, discreta e entusiasmante, a fidelidade a um espaço nuclear, ontológico, e porventura inacabado, a que, com teimosia, chamámos Casa. Qualquer coisa secreta transforma então o sótão num palco onde a mentira se disfarça de fingimento. E não encontramos nisso nada de escandaloso.

Três ou quatro perguntas, no meio de uma conversa

EPB: Percebe-se nesta exposição, uma vez mais um gosto literário, desde logo evidente no carácter provocatório dos títulos… Dir-se-ia que cada tela os absorve ao instaurar um jogo de espelhos?
AV: Os títulos desta exposição são, como na maioria dos títulos que coloco, “roubados” a obras literárias. Há uma relação muito próxima com o Tempo que vivo no momento. 
Estou a ler a biografia da Susan Sontag, Vida e Obra, escrita por Benjamin Moser. Eu não sei se as telas absorvem os títulos (se isso foi conseguido). O que eu sei é que ao escolher um título e atribuí-lo a uma tela é como se estivesse em frente a um espelho e dialogasse comigo própria. Eu falo muito comigo própria. Tenho grandes conversas comigo no silêncio do atelier. Sou eu que sou absorvida. E se eu sou a pintura, então sim.

EPB: Transparências e sobreposições, ironias e melancolias, detectam-se aqui com facilidade. Sente-se um certo ritmo, o movimento das figuras, numa procissão anárquica, uma certa ideia de arquipélago, a dinâmica das manchas, fazem parte de uma arqueologia do olhar?
AV: Fazem. 
É à maneira do pintor uma arqueologia do saber. Um modo de ver metódico que se vai construindo ao longo dos anos.

EPB: Há alguma fidelidade ao sonho? “E viveram felizes para sempre”, como no fim das histórias infantis com príncipes e princesas, e às quais ninguém já parece prestar grande atenção?
AV: Eu gostaria. Mas não vale a pena enganar-me a mim própria.

EPB: Não fugir ao tempo é uma maneira de se deixar esculpir por ele, como sugeria a Yourcenar? 
AV: Sim é. Talvez porque a noção de finitude nos chega de um momento para o outro, mas na verdade é uma conversa continua sobre um método que nos acompanha desde sempre. 
Estamos é durante os anos juvenis, distraídos. Já não estou mais. Não fujo nem brinco mais às escondidas.

11.06 — 02.07.2022
Galeria Fernando Santos (Espaço 531)

Phill Hopkins
Some Paintings with a Figure and some Without

11 Junho a 02 Julho 2022

O mundo tem a cor dos nossos olhos.”
Teixeira de Pascoaes

O trabalho pictórico de Phill Hopkins desenvolve-se na premissa substancial de integrar os processos naturais do espelho da natureza visível no seio plástico transformativo da ideia artística da obra.
A natureza revelada, constatada, integrada na conceptualização do fazer-da-obra permitem uma verificação empírica que o artista captura, mediante estratégias mentais ou de reprodução técnica, como o caso da fotografia, para se suportar delas como modalidades apriorísticas de intenção transferidas posteriormente para a tela, para o espaço isento, como tabula rasa, servidora ideal de transmissão da parte imaterial para a materialidade do suporte. A natureza evidenciada pela e na obra mostram uma diferenciação, ou melhor uma divergência concernente ao levantamento puramente mimético, de reprodução exacta ou fidedigna das qualidades reais retinianas.
O seu desenho e a sua pintura desvelam um atravessamento radical da simples observação, da factual constatação que se estende à sua volta, sendo antes os elementos pictóricos inseridos no espaço como intencionalidades poéticas de habitar o quotidiano, de fazer surgir na superfície da obra uma estranha familiaridade superficial, que deslocam a imagem representativa da paisagem, do plano da natureza capturado, para um mais além representativo, num domínio reordenador pertencente ao reino da metáfora, da transferência semântica da realidade para uma esfera do verosímil, da pura possibilidade.

Nas palavras do artista “the landscape acts as a mirror, reflecting patterns in myself, inviting and allowing me to make intimate physical and emotional connections.” Estas conexões servem de mediação entre o gesto criador e o olhar organizador desenvolvido pela obtenção dispositiva espacial, que uma vez interligados supõem uma abordagem da realidade contaminada pela projecção intelectiva, emocional, confessional do artista, num retrato paisagístico que tanto tem de natureza primordial, matricial, como de retrato do próprio, ou da figuração (tanto presente como ausente) numa abordagem dual à inscrição de sentido na obra.
Phill Hopkins parece aproximar-se da matéria do mundo por intermédio do artifício dos sentidos, desregulando as fronteiras estabelecidas daquilo que é a tradição generalizada da landscape painting, indo ao encontro do instante da aparição e da sua aura momentânea através de um gesto único, singular e irrepetível, cristalizado consequentemente na obra, como retrato duradouro de pertença tanto interna e externa da naturalidade da natureza.

A natureza surge deste modo no trabalho como um catálogo multímodo de experiências, sensações, reminiscências, nomeadas pela representação imagética complexa cujas estruturações se desenvolvem como um desvio da figuração perspéctica e da paleta de cores legitimada na autenticidade.
A composição de Hopkins parte do exterior visível para uma profundidade ontológica interna, cuja imagem retorna à superfície codificada pela singularidade do seu processamento conceptual.

Por Rodrigo Magalhães

(PASCOAES, Teixeira de. D. Carlos. Assírio & Alvim, Lisboa. 2010, p.75)