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06.06 — 31.07.2026
Galeria Fernando Santos

Luís Silva Carvalho, essencialmente pintor, desenvolve nos últimos tempos uma Estética Pós-Apocalíptica. Os seus últimos quadros, as suas últimas telas vivem de uma explosão de cores, de todas as cores da paleta. Em certo sentido poder-se-ia mesmo falar de uma certa alegria em toda esta última produção. Cada quadro comporta em si uma estranheza, uma ambiguidade. Cada incipiente figura poderá ter, consoante o seu observador, ou até no mesmo sujeito encarando esses quadros, várias interpretações. Será isto ou será aquilo? Por mais que possamos pensar, imbuídos de um gesto racional, o desejo de sentido lança-se sobre essas cores para ver o que não está lá. Todos nós somos, quer queiramos ou não, intérpretes e tradutores. Luís Silva Carvalho é também um observador, o primeiro, porque pretende configurar qualquer coisa, ignorando o quê. Este quê é muito mais importante e fundamental que o porquê. Ou, como diria Heidegger, num outro contexto, este quê veio para substituir, mesmo se provisoriamente, pois estamos inseridos na história, o como e o porquê. Heidegger sublinhou-o, o que se nos apresenta desvela-se «sem como nem porquê».

O observador pensa o que vê no quadro, sente o que se insinua na tela? Ou só pressente, como pressentiu Luís Silva Carvalho, que algo se passa nessa pintura, um não sei quê que nos interpela?  Quando se pinta sem um plano prévio, não se está no domínio do teleológico, de uma finalidade, visual ou/e conceptual. O quadro, a tela, não se dirige para nenhuma direcção precisa, finda em plena perplexidade. Luís Silva Carvalho, sem no desejar, comete uma violência. Mas toda a arte não é uma violência? Uma abertura, uma fissura imperiosa no que não existia?

Luís Silva Carvalho, através dos seus mais recentes quadros, diz-nos, de uma maneira sóbria mas implacável, que não se pode mais falar de figuração ou de abstracção. Tornaram-se conceitos inúteis, perderam a sua produtividade. A ambiguidade da sua pintura instala-se na arte contemporânea como um recesso da contradição, ou como a plenitude da coexistência, graças ao seu gesto e à sua atitude. Não se trata, este feito e este facto, de uma ultrapassagem ou de uma transgressão revolucionária dos conceitos que presidem ainda hoje, passando por modernos. Luís Silva Carvalho está ao lado dessa problemática ou dessa distinção. Como diria Barthes, se a arte quiser resistir à arbitrariedade do nosso tempo, terá que encontrar uma terceira via, inaudita e excêntrica. Acrescentando, o «versus» está estruturalmente em consonância com a sua aparente oposição. Daí o ter proposto como solução para este problema, considerando-a «uma subversão subtil», o extravagante. Subverter não é transgredir. Não é um crime. Não é a passagem de uma frustração pessoal para a arte.  

Para Luís Silva Carvalho pintar é mais do que a explicitação de uma arte, é um desejo incoercível, é uma obsessão, uma prisão. Que esta prisão seja libertadora só mostra que certos gestos da praxis transportam em si a complexidade da contradição e do paradoxo. E que a praxis pode e deve conviver com a poiésis. Luís Silva Carvalho pinta com o seu corpo, dia a dia, no presente que lhe coube. E o seu corpo é sensível à pluralidade, à diversidade, aos acontecimentos e às especulações. Na sua obra encontra-se a deiscência, não o isolamento ou o medo de julgar e pensar (etimologicamente pesar) a sua experiência humana, social e artística. O pintor é do seu tempo, mas comportando uma ambivalência. O tempo histórico em que vive com os outros, isto é, cultural, e o tempo que ele próprio inventou e inventa, isto é, pessoal. É entre a cultura e a vivência pessoal que se joga toda a sua pintura.

Excertos de “ A estética pós-apocalíptica”.

 Silva Carvalho(escritor)