
Manuel Rosa, a Escultura da Integridade
«Um sublime humanístico é um oxímoro», afirma Thomas Weiskel, ao preconizar que «é a epifania da limitação absoluta que precipita o momento sublime». Também assim estas Esculturas Recentes de Manuel Rosa, configuradas pelo gesto de corte que o artista lança às suas figuras humanas. Inscrevendo-se numa tradição escultórica que vai do trio de Laocoonte a Rodin e a Brâncuși, passando por Bernini e Strazza (sobretudo o das figuras veladas), Manuel Rosa confronta-se — e confronta-nos — com o produto do Tempo. O que resta quando já não restamos?
Escavando à procura do que fica, o fóssil da presença humana, o artista resgata, afinal, da condenação da memória, o próprio humano. A aqui rediviva damnatio memoriae opera de forma metabólica, ao esconjurar o circunstancial, e ao representar o sentido antropológico como o resto que sinaliza a dignidade, no sentido em que a expressou Pico della Mirandola no seu mais famoso discurso. O homem como escultor de si mesmo, capaz de lidar com a sua própria finitude, projectando-se para esferas superiores a partir da decisão talhada no seu devir. Eis um método de exorcizar a morte.
A escultura de Manuel Rosa é, pois, uma escultura da integridade. As figuras excertadas tornam sensível não a Ideia, em termos hegelianos, mas a profundidade da superfície, conforme formulada por Merleau-Ponty. Ao quebrar a inteireza, cada peça reedifica, em potência, a integridade espantosa destes seres em permanente rumo retrospectivo, e contudo suspensos num eterno Presente. Um desafio ao conceito do humano, fora de todo o essencialismo. Isto porque, como ensina Aristóteles, o acto de tocar constitui vários sentidos, e a sensibilidade dos objectos tangíveis manifesta-se, por isso, plural.
Através do trabalho na pedra, Manuel Rosa convoca-nos para um face‑a‑face — por vezes temível — com o que é durável, longe da vanitas vanitatem, permeada por solipsismos e outros subjectivismos radicais. Aqui apresenta-se o íntegro, o inteiro, numa relação de cumplicidade ética e estética que faz deste regresso de Manuel Rosa às exposições uma verdadeira bênção. Aqui apresenta‑se um sublime à escala humana. Um oxímoro que reclama por nós, portanto.
Tânia Furtado Moreira




