“All is linked, all is consequence”
Jean-Luc Godard
Em 2008, para o projeto Nothing will keep us together, a ideia dos polos, e mais especificamente do Ártico, nas suas diversas configurações estéticas, formais e conceptuais, surge pela primeira vez no meu corpo de trabalho. Na altura, para aquela exposição, foram realizados os primeiros mapas em que construo um rendilhado de ossos pertencentes ao humano e ao animal (inclusive estruturas ósseas pertencentes a dinossauros), numa simbiose estrutural indistinta na sua génese. É também em 2008 que surgem as grelhas, que povoam inúmeras obras bidimensionais, por vezes costuradas, outras já existentes no próprio material utilizado, ou ainda desenhadas, evocando as esquadrias clássicas que eram usadas na construção de desenhos ou as grelhas de fios usadas em escavações arqueológicas.
Mais tarde, em 2015, regressei ao Ártico, não só para aprofundar a(s) possibilidade(s) do(s) tema(s) mas por uma vontade de superação do que tinha sido a primeira incursão neste tema, que considerei sempre de algum modo falhada. O Ártico configura historicamente uma
série de questões que me interessavam ainda pensar. As regiões polares têm acompanhado o imaginário cultural e social desde o séc. XIX: os conceitos gerados em torno daquelas áreas geográficas são do domínio da utopia e da ciência. Um lugar remoto, quase inabitado, onde a conservação fóssil, possibilitada pelas baixas temperaturas, advém a descoberta e conhecimento da origem do Homem e do planeta. Deste modo, criei em 2015 (por dois momentos, em exposições distintas, mas complementares) um dispositivo que referenciava uma expedição imaginária, recorrendo a uma estética documental e museográfica, onde era possível encontrar objetos que simulavam diversos artefactos: uma rocha com ossadas fósseis incrustadas, um caderno com registos de mapeamentos geográficos, uma mochila, um par de botas, uma máscara, uma luva, uma pele de urso, etc. O segundo momento expositivo foi ainda acompanhado por uma extensa série de desenhos – “Desenhos de Campo”.
Entre 2015 e 2025 passaram dez anos, e neste espaço de tempo muitos desenhos e objetos derivativos das exposições anteriores foram sendo feitos, pensados e reformulados.
A exposição The Great Unknown, que agora apresento no Espaço 117 da Galeria Fernando Santos, é o culminar, embora não o assuma como epílogo, desta travessia iniciada em 2008.
O display expositivo massivo reproduz um modo de fazer estilo wunderkammer e em simultâneoa entrada da casa onde habito: esta citação doméstica alude à ideia de que a construção do mundo se faz de dentro para fora, para falar de antropocentrismo, supremacia, povos indígenas, geopolítica e xamanismo.
Nesta exposição, com mais de cem peças, reúnem-se tanto obras que migram dos projetos anteriores como obras feitas para a ocasião, para além de inéditos nunca expostos. A exposição reúne ainda uma série de objetos pertencentes à minha coleção privada, que fui recolhendo ao longo do tempo, e onde por afinidades estéticas e formais consigo encontrar ecos de parentalidade com possíveis artefactos neste museu imaginário que é The Great Unknown. Um museu de objetos falsos, desprovidos de veracidade histórica – um Museu do Desconhecimento.
Pedro Valdez Cardoso
Dezembro de 2025



