Para onde quer que se olhe há uma alegria enterrada.
E no entanto há tanta coisa amável e grandiosa
também à nossa volta
Friedrich Hölderlin in Hipérion ou o eremita da Grécia[1]
Numa carta citada por Virginia Woolf,[2] Walter Sickert descrevia-se como “um pintor literário”, acrescentando um lapidar, “felizmente, como todos os pintores decentes”. Tal como a escritora, Sickert fazia parte do grupo do Bloomsbury e a relação que promovia entre pintura e literatura permitia-lhe navegar entre artes. Para Woolf, esse olhar múltiplo de Sickert era encarado como alternativa a uma profundidade assente, no essencial, num certo ensimesmamento artístico, de pendor unidimensional. Nesse sentido, Woolf questionava, ainda no mesmo texto e em diálogo com Sickert: “de que serve a pintura quando se livra da companhia da linguagem e da música?”. Para, depois, argumentar que pintura e escrita têm mais em comum do que sugere um olhar rápido.
Se aceitarmos que o propósito primordial do escritor é revelar-nos uma determinada realidade, também devemos concordar que a descrição detalhada dessa mesma realidade é, paradoxalmente, porventura o caminho mais sinuoso para a sua revelação completa. Para captar o sentido genuíno das coisas, são necessárias várias perspetivas e uma abordagem que não seja apenas formalista – preocupada com a cor, a luz e a representação, mesmo que abstrata, dos elementos –, mas também capaz de invocar uma ideia, uma constelação de conceitos e de emoções ou até uma cena concreta. É isso que faz com que o compromisso da arte seja tanto mais intenso quanto conseguir articular formalismo com ideias, princípios e emoções. E, também, quanto mais contrariar a conceção (moderna!) de antecedência da forma em relação ao sentido.
Porventura, este é o principal traço distintivo do trabalho de Avelino Sá: uma pintura literalmente literária e que navega entre artes, o que persiste como o mecanismo mais preciso para procurar uma verdade. Mas Avelino Sá não é um pintor literário apenas por buscar de maneira recorrente inspiração nas palavras de escritores – que surgem reproduzidas nos seus trabalhos, com inscrições de fragmentos de poemas ou até de textos narrativos. É um pintor literário na medida em que, do mesmo modo que todos os grandes escritores são grandes coloristas, capazes de projetar uma paleta ampla de cores da realidade nas suas páginas, a sua pintura tem como ambição captar a essência do real, mesmo que através de traços minimalistas.
Este propósito não é independente dos autores que atravessam a sua pintura. Se pensarmos nos escritores que surgem persistentemente por detrás da obra de Avelino Sá – de Robert Walser a Paul Celan, passando por Daniel Faria, para me circunscrever a poucos exemplos – todos eles partilham uma ambição absoluta e poética na expressão do real. Autores para quem a palavra escrita parte de uma dicção elevada, assente na negação da trivialidade quotidiana como ilustração superficial da existência ou de uma certa recusa empenhada do “deleite do vazio”.
Foco-me, neste caso, em Friedrich Hölderlin, que dá o mote a este conjunto de obras, mostradas sob o título, “A morte do mundo nos teus olhos” – em particular, no texto Hipérion, um livro composto de fragmentos epistolares, ficcionados para dar voz ao anseio de uma alma deslocada (o eremita da Grécia), marcada por um desejo de grandeza e pela nostalgia de uma era perdida (a da Antiguidade Clássica), recordada como moral e culturalmente superior.
Se toda a “consciência plenamente contemplativa” – para recorrer à formulação de Walter Benjamin[3] – é o último fundamento e o conteúdo substancial da poética de Hölderlin, em Hipérion, o escritor alemão move-se numa semi-narrativa de reminiscências autobiográficas, invocando o que pode ser categorizado como uma “santa teocracia do Belo” (nas palavras do próprio), só possível de alcançar encontrando refúgio “nos amados dias da juventude”. Esta é uma nostalgia que, num exercício anacrónico, se pode apresentar como contraste literário às décadas em que Hölderlin caminhou através de um longo exílio interior, isolando-se do mundo, da escrita e até de si mesmo. Um afastamento que foi ao mesmo tempo social e criativo.
Esta busca das “regiões abandonadas da vida”, e do “abismo crepuscular” que logo se segue aos efémeros dias felizes, marca de forma indelével as reflexões filosóficas de Hipérion, onde se entrecortam lirismo com curtas passagens que sugerem narrativas. Neste sentido, estamos face a uma escrita “feita de restos”, para utilizar a expressão de João Barrento[4] – ou seja, uma prosa elegíaca, de lamentação da perda daquele mundo de que o escritor dá testemunho. Uma perda que corresponde, também, a um fracasso – no fundo, o ideal romântico que alimenta.
Do mesmo modo que para Hölderlin a Antiguidade Clássica não correspondia a um lugar distante, mas à possibilidade de concretização idealista de uma ordem sagrada, na qual liberdade e beleza se transformavam num todo indistinto, também nestes trabalhos de Avelino Sá se perscruta a mesma busca. Repare-se, em Hipérion a forma não é irrelevante: em lugar da opção por um poema de contornos épicos, que projetasse a grandiloquência imaginada da Grécia antiga, Hölderlin escolheu fragmentos epistolares, recortes da vida privada, em tom confessional. No fundo, o mesmíssimo exercício intentado por Avelino Sá. A manifestação poética do sublime que move Hölderlin, marcada pela contenção formal em Hipérion, traduz-se neste conjunto de quadros em gestos depurados, assentes numa paleta de cores propositadamente limitada, como se o minimalismo e a contenção fossem a forma exata para alcançar uma topografia gráfica do real.
É sintomático que Avelino Sá escolha para mote deste conjunto de peças a expressão “a morte do mundo nos teus olhos” – citação alterada de um fragmento de um poema de Miguel Serras Pereira. Ou seja, o fracasso do mundo não é aqui vislumbrado desde uma determinada perspetiva (o que aconteceria, por exemplo, se “a morte do mundo” fosse vista “aos teus olhos”), mas antes como uma perda que se vislumbra nos próprios olhos do observador, agora no lugar de observado.
E também aqui não é irrelevante o que é observado e o olhar lançado sobre essa realidade. De novo, a omnipresença da paisagem essencial, marcada por pequenas fissuras, em quadros que surgem como livros abertos sobre a natureza. Paisagens esparsas, invariavelmente montanhosas e que não podem deixar de ser encaradas como sugestões simbólicas de uma caminhada. Esta representação gráfica de um percurso possível talvez seja uma forma de contrariar a ideia de morte da natureza – não apenas como possibilidade material, mas, também, como expressão do afastamento dos homens face ao mundo ou como atualidade do “ensombramento da razão” (de novo, para me socorrer de Barrento a propósito de Hölderlin).
O que se apresenta nesta série é uma pintura enquanto carta topográfica de emoções. A representação em escala de acidentes inscritos na superfície terrestre, que nos sugere posições planimétricas e altimétricas, aqui construída a partir de pequenas incisões, fragmentos do real, que anseiam pela presença humana – nem que seja através da imaginação dos passeios solitários, por exemplo, de um Walser ausente/presente, perdido no mundo. Esta é, por isso, uma pintura que nos prende através de um lirismo que não nos é dado, mas deve ser procurado: oferecendo-nos um caminho em direção ao abismo (afinal, é a “morte do mundo nos teus olhos” que está em causa) e que nos remete para a consciência dos limites. Para a necessidade de reequilíbrio entre emoção, entendimento da natureza e racionalidade no modo como enfrentamos, hoje, os excessos cometidos pelos homens na relação, por definição frágil, com o mundo natural.
Há, na verdade, um fio que liga a nostalgia do mundo perdido de Hipérion, alimentada por uma consciência essencialmente contemplativa perante uma natureza abandonada, e a convocação de uma realidade natural montanhosa, depurada e minimalista, inscrita nestes quadros de Avelino Sá. Quadros de inclinação contemplativa, é um facto, mas que, ainda assim, nos impelem a uma caminhada, movida por uma força interior fiel ao espírito daqueles que, como Hölderlin, com lucidez, se recusam a ceder e a abdicar de uma visão do que a humanidade (e a vida!) poderia ser. Um mundo de respiração ampla e absoluta, capaz de convocar, de novo, o mistério da verdade imanente, através da celebração da natureza como intimidade com o divino.
Pedro Adão e Silva, fevereiro de 2026
[1] Hölderlin, Friedrich in Hipérion ou o eremita da Grécia, publicado por Assírio & Alvim (1997)
[2] Woolf, Virginia, “Walter Sickert: A Conversation” in Oh, to be a painter!, publicado por David Zwirneer Books (2021)
[3] Benjamin, Walter, “Dois poemas de Friedrich Hölderlin (Coragem de poeta – Timidez)” in Ensaios Sobre Literatura, publicado por Assírio & Alvim (2016)
[4] Barrento, João, “Os Degraus do Infinito” in Friedrich Hölderlin, Todos os Poemas, publicado por Assírio & Alvim (2021)





