Este projeto nasce de perguntas teimosas que me acompanham há algum tempo — sobretudo sobre a relação entre o humano e aquilo a que chamamos natureza, e sobre o quão instável essa ideia é. O que é, afinal, natureza? Algo dado? Algo construído? Um acordo que fomos fazendo ao longo do tempo?
Entre o natural e o artificial, aparecem formas domesticadas, imitadas, corrigidas, hibridizadas. Formas que parecem espontâneas, mas que aprenderam a parecer. Interessa-me esse lugar pouco definido, onde já não é claro o que cresce por si e o que é fabricado, onde observar e imaginar se aproximam.
Através do meu trabalho plástico, penso tanto na forma como ocupamos o mundo vivo quanto naquilo que nos escapa: a infiltração, a resistência, a insistência do não-humano. Nada é puro. Nada é fixo. As formas estão em trânsito, entre o controlo e o acidente, entre a intenção e o desvio.
Mais do que procurar respostas, esta instalação, que se insere numa série de trabalhos a que chamei Naturfatura, propõe aproximações. Um espaço para olhar com tempo, onde as formas ficam em suspensão — entre o que cresceu e o que foi feito.
(Catarina Leitão, 2026)
