Exposições

José Loureiro - Manga Cava

A manga cava areja o peito — sobretudo se a meia elipse ultrapassar em três dedos o ester- no — e as axilas. Mas o lado prático da manga cava não deve obliterar a beleza do desenho do corte do tecido, normalmente em algodão branco de estrias finas. A tentação de escanhoar, ou de recorrer a outros métodos mais actuais, é não entender o conjunto e sujeitar a manga cava a uma amputação. Porque não é apenas a manga cava que está em causa, é a manga cava a revelar uma grande superfície frontal e duas concavidades laterais que se mantiveram perfeitamente lisas durante os primeiros anos de vida do ser que a vai receber, apenas à espera do desabrochar pleno na puberdade e posterior consolidação vigorosa na idade adulta desse mesmo ser: o lustro, por qualquer razão, ao contrário da rugosidade, não vai bem com a manga cava.

Nos nossos dias, o bom gosto está do lado da singela simplicidade da manga cava, na mesma medida em que durante toda a segunda metade do Séc. XVII e princípio do Séc. XVIII esteve do lado da indumentária complexa de Luís XIV. Por isso, optar por soluções intermédias entre estes dois grandes pólos — pecadilho comum —, na ânsia de debutar com estrondo na melindrosa arte do galanteio, não passa de um erro de principiante, e não faz mais do que causar embaraço às pessoas de bom gosto — sempre raras — que eventualmente se encontrem por perto.

Ao pé do esplendor da manga cava, a fatiota domingueira mais vistosa empalidece e debanda.

José Loureiro, 2020

 
 
 

2015 GALERIA FERNANDO SANTOS

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