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M. Ángeles Díaz Barbado – Speculatio

08.01 02.03.2024
Galeria Fernando Santos
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M. Ángeles Díaz Barbado – Sem título, 2022, Carvão sobre papel Schoeller, 100 x 70cm

Na tradição medieval considerava-se a possibilidade de chegar, através da contemplação do mundo visível, à compreensão dos princípios divinos segundo os quais Deus havia criado o mundo. Ao estudo deste Livro da Natureza chamou-se Speculatio, seguindo as palavras bíblicas: Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa. Este processo implicará uma nova visão: da corporal à espiritual, da percepção à intelectualização. Conhecer as verdades invisíveis através da alma propiciará o crescimento necessário que nos aproxima do divino.

Foi neste contexto que se criou A Torre de Babel, pintada por Pieter Brueghel, o Velho em 1563. Contemplá-la implica uma viagem infinita, da visão ao espírito. A aspiração ao mais alto, a suoeração e o trabalho interminável. A conquista sublime e o impossível, o inacabado. Cada fragmento mostra um espaço complexo, enigmático onde a construção se afirma, mas ao mesmo tempo a terra, a rocha parecem resistir e emergir enfaticamente, impondo-se à ordem humana da arquitectura. É a história, transferida para a pintura, da tensão entre o ideal e o seu colapso. “Tratava-se de construir um mundo e situá-lo em torno do seu centro, um centro capaz de unir o centro da terra com o centro do céu”, afirma Giorgio Manganelli. Mas, continua, cada vez que as grandes ambições humanas afloram, a sombra da grande torre aparece como lembrança do que poderia chamar-se de “a primeira grande catástrofe tecnológica”.

Em 1565 Brueghel pintou uma série de obras que abordam o tema das estações do ano: Caçadores na neve, Dia sombrio, O regresso da manada… Nelas observa-se uma constante conexão, uma marcada tensão entre natureza e religião, entre o humano e o divino, entre a história e o mito. Celebra-se o trabalho, a colheita, mostra-se a dureza do Inverno; aparecem jogos, actividades de recreio, mas também pequenos acidentes, descuidos; evidenciam-se os impulsos humanos desses seres cujos rostos permanecem ocultos, desaparece em certas ocasiões a distinção entre o humano e o animal. O homem e a natureza formam parte de um processo temporal, cíclico no qual ambos estão submetidos ao rigor do futuro, das transformações. Estas cenas são construídas como uma espécie de universos/paisagens que exigem uma observação minuciosa e cuidadosa, que permitem descobrir os infinitos detalhes que estabelecem os seus códigos reais de interpretação.

Esta exposição oferece um olhar sobre este mundo de imagens/ideias para, através de uma forma de desenho às vezes fragmentada que parte da observação das obras citadas, estabelecer novamente a tensão que une a natureza e a própria condição humana e na qual continuamos a nos reconhecer.