Fechar

Pedro Valdez Cardoso

15.01.2022 12.03.2022
Galeria Fernando Santos
Partilhar

Houve, em tempos, uma história que virou estória com a duplicidade da emoção e do assombro. Só a imagem base resta, como um facto vivido em criança, que sobrevive apenas nos contornos mais espetaculares. Os factos, que não são assim tão importantes para este caso, perderam-se. Na arte, os factos são secundários, mesmo quando falam da verdade. Como na poesia, finge-se

É uma estória aflitiva. Não tanto pelas vítimas, mas pelo ultraje antropocêntrico que lhe subjaz e que tudo verga a seus desígnios: a Humanidade no topo darwinista, sempre; a Natureza, os animais, nos últimos patamares – criaturas utilitárias, servis, úteis para atenderem às nossas frustrações, infelicidades e infortúnios. É uma estória, dizia-se, sobre um cavalo, que irrompe pelas labaredas de um grande fogo, com a pelagem e a crina em chamas, negro de fuligem, e a pele coberta de pústulas do calor dantesco. As chamas bruxuleavam na íris negra do olhar ferido. Ao longe, depois de um galope aturdido, ecoava o relinchar dos congéneres que se deixaram morrer nos estábulos, o crepitar das labaredas, a madeira velha e seca a estalar, a construção a ruir.

Só ele teve a audácia de fugir. Só ele rompeu com os anos consecutivos de adestramento. Dócil, servil, autonomizou-se, individualizou-se sem esperar pelo dono. Puro sangue lusitano.

Os restantes não tiveram o mesmo ímpeto – aquele ímpeto primitivo, selvagem, que põe o instinto à frente da razão alheia e clama por liberdade, libertação. Esperaram pelo amo que os salvasse e não conseguiram interpretar a linguagem do fogo e o comando das chamas. O comportamento estava agrilhoado, dividido entre o que queriam fazer e o que deviam fazer.

O cavalo troteou desassossegadamente noite afora, macerado de cansaço, mas certo, no seu cérebro e consciência animais, que tinha ousado a liberdade, atravessado o fogo, ultrapassado as sevícias da arte equestre e do tratamento militar – Equus renascentis. Para trás ficaram os arneses, as selas, as luvas brancas dos cavaleiros, agora negras de fuligem. (José Pardal Pina, Dezembro 2021)

00