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Cabrita

25.10.2021 31.12.2021
Galeria Fernando Santos
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Cabrita talvez seja mais reconhecido publicamente pela sua produção escultórica, de instalação e intervenção no espaço, do que enquanto pintor. A pintura é central em toda a sua prática. E o artista nunca deixou de reclamar: sou um pintor! As instalações com luz procuram a luz no espaço tanto quanto as pinceladas se exibem ou ocultam na bidimensionalidade. As esculturas são frequentemente o resultado de uma assemblagem, técnica eminentemente pictórica. A verdade é sempre um gesto. Ou, se preferirmos, uma intenção seguida de um gesto. A verdade que o artista definiu, em 1984, assim: “A pintura forja a única verdade possível para entender a realidade. Essa reveste, em cada tempo, mitos, mortes, tudo o que é comum às inquietações dos homens. Aos artistas, aos pintores, estando-lhes imputada a guarda dos tesouros compete-lhes também o rigor e a efervescência com que em cada quadro oficiam estes rituais.”


Nas pinturas que agora se apresentam, Cabrita parece fechar os olhos num processo de obscurecimento vital, reproduzindo aquilo que lhe está próximo. Coisas simples, coisas que ganham, na sua devolução ao mundo, uma espessura intemporal, como se todos os tempos, as velocidades e as inquietações se tornassem um só ponto concentracionário na aridez destas telas.


Contra os truques que habilmente desaprendeu, aqui ressoa a imediatez do necessário. A figura humana e a paisagem: os grandes temas nunca elididos. Na primeira, a sua sugestão, no fumo, no espelho, na mesa e até na referência erudita ao nu…na segunda, o rio (sempre o rio!), as janelas (metáforas da própria pintura).

Esta é uma pintura que não mente. A mão está lá. As ideias revelam-se na clarividência do singular. Não poderia existir pintura similar, porque aqui Cabrita expõe-se sem hesitação. Ainda que possa não parecer, esta é uma continuada busca pela beleza.  A transparência da feitura determina-se pela sempre almejada primordialidade. Num arco de mais de quarenta anos de trabalho, o mesmo fulgor, a mesma indomável vontade de apreender o mundo para nele se inscrever de tantas e notáveis formas.

Voltemos às palavras do artista, agora em 2018: “Um risco num papel ou uma parede de tijolos com cinquenta metros de comprido são, ao fim e ao cabo, uma e a mesma coisa. Porque são o lugar de afirmação da individualidade do autor. E para essa individualidade do autor ser permanente em criatividade, em confrontação, em permanente exercício de transformação do mundo, o que é que é preciso, o que é que está na base disso? Uma ferramenta muito simples e que é, de fato, a ferramenta mais importante do artista. Ou seja, a curiosidade.”

Miguel von Hafe Pérez

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