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Santiago Ydáñez – Caput Mortuum

08.01 02.03.2024
Galeria Fernando Santos
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Santiago Ydáñez, Cassius Clay, 2023, Óleo sobre tela, 200 x 200cm

O Caminho de Santiago

A obra de Santiago Ydáñez desenvolveu-se ao longo das duas últimas décadas em múltiplos rumos, mas sempre altamente singularizados: rostos, paisagens, animais, imaginária de referência religiosa ou cenas altamente erotizadas, com evidente sentido voyeurístico, tudo converge para uma constelação própria cuja chave só o artista detém, mas cujas relações e conexões íntimas não deixam jamais de nos surpreender. Escrevi antes (2006) a seu propósito que, nela, “ocorre algo que é da ordem de uma produção do rosto e que essa permanente ocorrência é um processo interno de agenciamento em que se gera uma pequena fenomenologia própria, singular, que faz com que tudo se manifeste sob a sua presença.” Sob o signo do rosto e da sua rosticidade, portanto, ou seja, sob o signo mais alto da expressão, graças à qual se escapa à representação.

Nesta nova série, acercada agora do universo brutal do boxe, reencontramos de novo esses rostos a que nos habituou, mas igualmente encontramos os corpos dos boxeurs devastados pela prática desse desporto violento e cru em que, como se numa arena e seguindo regras próprias, dois lutadores se defrontam quase ferozmente até à derrota de um deles, usando apenas as mãos. Estamos assim diante de uma bizarra alegoria da pintura, posto que também ela se pratica com as mãos e o corpo mas, sobretudo, uma vez que todo o artista sabe que a relação que o pintor mantém com o quadro é, também ela, semelhante dessas lutas em que um dos dois sai vencido. A pintura — tal como a praticam Santiago Ydáñez e alguns outros artistas contemporâneos — sobretudo depois de Francis Bacon, consiste numa luta violenta, processada com um grande investimento do corpo no acto de pintar que é vivido como se no interior de uma arena.

Cada um destes corpos, então, cada expressão que atravessa todos estes rostos, muitos deles reconhecíveis em grandes figuras da história do boxe, nos coloca diante de aspectos do sofrimento humano, seja este físico ou psicológico. Muitos de nós desconhecerão provavelmente que o trabalho do artista é, também ele, atravessado pelo espectro do sofrimento, seja no plano da criação, no da expressão, da divulgação ou mesmo no da relação com o meio em que trabalha para se afirmar, em que muitos são os combates, os rounds, os obstáculos, os sofrimentos com que cada artista se depara quando se entrega a uma tão estranha forma de vida como é, sempre, a dos artistas.

Mostrar os corpos e os rostos dos boxeurs é, assim, um pouco como mostrar os corpos dos mártires, também eles objecto de um sacrifício que os transcende — a santidade, o desporto — tanto quanto a arte transcende o artista. Olhando para eles, talvez possamos compreender um pouco melhor do que falamos quando falamos de arte e como a sua prática exige, de cada artista que com ela se envolve e que a ela se entrega, uma autêntica peregrinação.

Bernardo Pinto de Almeida