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Federico Osorio – Piezas

21.03 30.05.2026
Galeria Fernando Santos
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A obra de Federico Osorio Lobo insere-se no campo da abstração contemporânea a partir de uma posição singular: aquela que articula geometria, matéria industrial e pensamento simbólico num mesmo gesto plástico. Longe de responder a um programa formalista fechado, o seu trabalho nasce de um processo no qual a descoberta material, o rigor técnico e a intuição poética confluem como dimensões inseparáveis.

O ponto de partida das peças aqui apresentadas foi a descoberta fortuita de chapas industriais em desuso. Esses restos fabris, marcados pela função e pelo desgaste, foram reconhecidos pelo artista como matrizes potenciais de estampagem. Esse gesto o aproxima, em primeira instância, da sensibilidade moderna que soube encontrar no industrial um novo território estético. No entanto, diferentemente do ready-made duchampiano — associado a Marcel Duchamp —, aqui não há deslocamento conceptual irónico, mas transformação técnica rigorosa. A limpeza, adaptação e preparação das superfícies metálicas exigiram domínio preciso da gravura, assegurando a retenção da tinta e a sua passagem pela prensa. Nesse sentido, a prática do artista dialoga com a tradição de gravadores como Antoni Tàpies, para quem a matriz não era mero suporte, mas campo escultórico, e com a atenção concedida à materialidade como portadora de significado.

Nas obras PIEZAS, a composição organiza-se a partir de uma divisão axial rigorosa. O círculo — forma primordial associada à totalidade e à origem — estrutura o espaço mediante um sistema concêntrico em vermelho e amarelo que dialoga com uma semicircunferência negra segmentada, quase mecânica. Essa construção remete, na sua clareza estrutural, para a abstração geométrica de Wassily Kandinsky aquando da sua passagem pela Bauhaus, onde a forma pura se converte em veículo espiritual. Contudo, enquanto Kandinsky tende a uma vibração dinâmica e musical, Osorio Lobo mantém uma contenção mais severa, mais próxima do equilíbrio construtivo de Max Bill ou do pensamento estrutural de Joaquín Torres-García, no qual a geometria encarna uma ordem simbólica.

A axialidade cede lugar a uma organização horizontal na qual formas negras e brancas se interpenetram por meio de contornos ondulantes, quase topográficos. Dois núcleos vermelhos — um irregular, outro perfeito — emergem como presenças vibrantes numa paisagem abstrata que oscila entre o orgânico e o construtivo. Essa tensão entre biomorfismo e estrutura pode evocar certas formas de Jean Arp, assim como a síntese cromática radical de Ellsworth Kelly, embora em Osorio Lobo a redução formal não procure neutralidade minimalista, mas intensidade alegórica.

O uso restrito do negro e do vermelho, característico da série SUTRAS, estabelece uma polaridade fundamental: matéria e energia, densidade e pulsão vital. Nessa economia cromática ressoa a tradição suprematista de Kazimir Malevich, na sua aspiração à essencialidade, mas também se percebe uma diferença substancial: onde Malevich persegue a desmaterialização absoluta, Osorio Lobo preserva a memória física da matriz industrial. A marca técnica e a corporeidade do suporte permanecem ativas.

O termo SUTRAS reforça essa dimensão de síntese. Como nos textos breves e essenciais da tradição oriental, cada peça condensa uma reflexão em estruturas mínimas. A abstração não é aqui negação do real, mas destilação. O artista, atento à contingência do achado e à pulsão de seu tempo, atua como mediador entre matéria e sentido. Essa concepção aproxima-o da ideia de Paul Klee do criador como veículo de forças invisíveis, capaz de revelar aquilo que subjaz à aparência quotidiana.

Assim, a obra de Federico Osorio Lobo situa-se num território de cruzamento: entre gravura e pintura, entre indústria e contemplação, entre racionalidade geométrica e experiência interior. A sua produção dialoga com a história da abstração moderna sem diluir-se nela, afirmando uma voz própria na qual a técnica se converte em pensamento visual e a matéria em alegoria. Nessa transformação, a chapa industrial deixa de ser resíduo funcional para converter-se em paisagem interior: presença silenciosa que vibra entre o visível e o imaginado.

(Federico Osorio, 2026)