
Há coisas em que acreditamos apenas porque aprendemos a vê-las assim.
Um corpo cai. Uma linha sustenta. Um ponto fixa. O que está em cima pesa sobre o que está em baixo. A gravidade organiza silenciosamente a nossa relação com o mundo e, talvez por isso, raramente precisamos de a confirmar. Basta-nos reconhecê-la.
Nas pinturas de Maria Souto de Moura, porém, alguma coisa perturba essa certeza. As formas parecem suspensas. As linhas parecem suportá-las. Os pontos parecem prender aquilo que, de outro modo, cairia.
Parece.
Porque nada pesa realmente. Nada está verdadeiramente suspenso. E aquilo que julgamos reconhecer como um sistema de forças pertence, afinal, à superfície plana da pintura.
Como se houvesse peso.
Como se houvesse tensão.
Como se uma linha pudesse sustentar uma forma.
Como se o equilíbrio dependesse de tudo isto.
Talvez seja nesse pequeno intervalo entre o que existe e aquilo que acreditamos existir que estas obras começam.
A pintura de Maria tem vindo a construir-se precisamente nesse limiar: entre superfície e espaço, entre o que é visto e o que é percecionado, entre a realidade física da obra e a espacialidade que o olhar lhe acrescenta. Na sua investigação, a própria artista descreve a possibilidade de uma “falsa gravidade”, produzida pelo ritmo da composição e pela aproximação dos elementos à margem inferior do suporte. A pintura deixa, assim, de ser apenas uma imagem para passar a existir também na experiência de quem a observa, na posição do corpo, na escala, na luz e no espaço que a envolve.
Aqui, onde quase nada é necessário, um pequeno prego é suficiente para alterar tudo.
É o único elemento que realmente abandona o plano. Perfura-o. Uma linha aproxima-se dele. Uma sombra introduz profundidade. E, de repente, aquilo que era composição começa a comportar-se diante dos nossos olhos como uma pequena construção.
Não porque se tenha tornado tridimensional, mas porque nós lhe acrescentamos uma dimensão. A sombra oferece-nos uma prova. A partir dela acreditamos no resto.
O real torna-se cúmplice da ilusão.
Há qualquer coisa de profundamente arquitetónico nesta economia de meios. Não porque a pintura procure tornar-se arquitetura, mas porque bastam relações elementares — um ponto, uma linha, um plano, uma distância — para que o espaço aconteça.
O espaço não está representado. É convocado.
E talvez seja precisamente por isso que se torna tão presente.
Maria já havia experimentado esta instabilidade noutras obras: a sombra capaz de fazer uma superfície parecer levitar, ou situações em que aquilo que vemos nos obriga a desconfiar das leis físicas que julgávamos reconhecer. Na sua própria escrita, surge a pergunta sobre até que ponto podemos ser enganados “pelo comodismo do nosso olhar”.
Mas aqui o engano é mínimo.
Não há ocultação. Não há espetáculo. Tudo está diante de nós.
Talvez seja isso que torna estas obras particularmente inquietantes: vemos exatamente aquilo que existe e, ainda assim, vemos mais.
Procuramos instintivamente uma ordem para as coisas. Confiamos no peso. Confiamos na queda. Confiamos na linha que sustenta, no ponto que prende, na sombra que confirma. Procuramos incessantemente uma ordem para aquilo que vemos e, quando a encontramos, raramente perguntamos se ela estava realmente lá.
O olhar não é inocente. Também ele constrói.
Talvez seja esse o equilíbrio mais frágil destas obras: não o das formas, mas o nosso.
Entre aquilo que sabemos e aquilo que os olhos insistem em tornar possível.
Porque há imagens que não precisam de nos enganar. Basta que nos façam duvidar da certeza com que vemos.
Andreia Garcia
Bruxelas 15.09.2026 (em trânsito)
Para a Maria


